11.22.2012

MELISSA PANARELLO



Ouvi o interruptor da luz dar o seu dique e depois não consegui ver mais nada. Percebi passos e sussurros, depois duas mãos abaixaram meu jeans, tiraram o suéter fechado e o sutiã. Fiquei de fio-dental, meias altas e botas de salto agulha. Podia me ver vendada e nua, imaginava no meu rosto apenas os lábios que dentro em pouco iriam saborear alguma coisa deles. De repente as mãos aumentaram, e agora eram quatro. Era fácil distinguir porque duas estavam em cima, apalpando meus seios, e duas embaixo, roçando meu sexo através da calcinha e acariciando minha bunda. Não conseguia sentir o cheiro de álcool de Pino, talvez ele tivesse escovado os dentes no banheiro. Enquanto eu me imaginava cada vez mais dominada por aquelas mãos e começava a me excitar, senti,atrás, o contato de um objeto gelado, um copo. As mãos continuavam a me tocar, mas o copo esmagava a pele com mais força. Assustada, perguntei: - Quem é, porra? Uma risadinha no fundo e depois uma voz conhecida: - O seu barman, tesouro. Não se preocupe, eu só estou trazendo um drinque pra você. Aproximou o copo da minha boca e engoli devagar um pouco de licor de uísque. Lambi os lábios e uma outra boca me beijou com paixão, enquanto as mãos continuavam a me acariciar e o barman me dava bebida. Um quarto homem estava me beijando. - Que bunda gostosa que você tem... - dizia uma voz desconhecida. - Macia,branquinha, dura. Posso dar uma mordida? Sorri com o pedido engraçado e respondi: - Faz e pronto, não pergunta. Só quero saber uma coisa: quantos vocês são? - Fique tranqüila, amor - disse uma voz nas minhas costas. E senti uma língua lambendo as as vértebras da minha espinha. Agora a imagem que eu tinha de mim era mais sedutora: vendada, seminua, cinco homens que me lambem, me acariciam, me mordem e excitam todo o meu corpo. Eu estava no centro das atenções e eles faziam comigo tudo o que era permitido na câmara dos desejos. Não se ouvia uma voz, só suspiros e carícias. - E quando um dedo enfiou-se bem devagar no meu Segredo senti um repentino calor e compreendi que a razão estava me abandonando. Eu me rendia ao toque das mãos deles e sentia bem viva a curiosidade de saber quem eram, como eram. E se o prazer fosse fruto das ações de um homem feio e babão? Naquele momento, eu não me importava. Agora me envergonho, diário, mas sei que se lamentar depois de ter feito as coisas não serve pra nada. - Bom - disse finalmente Roberto -,falta o último componente. - O quê? - perguntei. - Não se preocupe. Pode tirar a venda, agora a gente vai jogar outro jogo. Hesitei um segundo antes de tirar a venda, mas depois puxei-a lentamente pela cabeça e vi que eu e Roberto estávamos sozinhos no quarto. - Cadê os outros? - perguntei surpresa. - Estão te esperando no outro quarto. - Que se chama...? - perguntei divertida. - Hum... sala da fumaça. Vamos apertar um baseado. Eu queria, com todas as minhas forças, ir embora e deixá-los lá. Aquela pausa me esfriou e a realidade se apresentou em toda a sua crueza. Mas eu não podia, agora tinha começado e tinha que ir até o fim a qualquer custo. E fazia isso por eles. Deu para entrever as silhuetas no quarto escuro, iluminado só por três velas apoiadas no chão. Do pouco que podia notar, a forma dos rapazes presentes não era feia e isso me consolou. No quarto, havia uma mesa redonda com cadeiras ao redor. O anjo presunçoso se sentou. - Você também fuma maconha? - perguntou Pino. - Não, obrigada, eu nunca fumo. - Essa não... a partir dessa noite você também fuma - disse o barman, que notei que tinha um belo físico torneado e alto, a pele escura e os cabelos crespos compridos até os ombros. - Não, desculpe decepcionar você, mas quando eu digo não, é não. Eu nunca fumei, não vou fumar agora e não sei se algum dia fumarei. Acho inútil e, por isso mesmo, deixo pra vocês. - Pelo menos, não vai nos privar de uma bela vista - disse Roberto batendo a mão na madeira da mesa. Senta aqui. Eu me sentei na mesa com as pernas abertas, os saltos das botas enfiados na madeira e o sexo aberto à visão de todos. Roberto aproximou a cadeira e a vela acesa do meu púbis para iluminá-lo. Apertava o baseado voltando os olhos primeiro para a erva cheirosa e depois para o meu Segredo. Seus olhos brilhavam. - Comece a se tocar - ordenou ele. Enfiei bem devagarinho um dedo na minha fenda e ele desviou a atenção do fumo para se dedicar à visão do meu sexo. Por trás chegou alguém que me beijou os ombros, me tomou entre os braços e me encaixou em seu corpo, tentando entrar com sua haste dentro de mim. Eu estava inerte. O olhar baixo e apagado. Vazio. Não quis olhar. - Ei, não, não... a gente combinou antes... essa noite ela não vai ser penetrada por ninguém - disse Pino. O barman foi até o outro quarto e pegou de volta a venda negra que antes cobria meus olhos. Vendaram-me de novo e uma mão me obrigou a me ajoelhar. - Agora, Melissa, a gente vai passar o baseado ouvi a voz de Roberto -, e cada vez que um de nós estiver com ele na mão vai estalar os dedos e tocar a sua cabeça, assim você vai entender que ele chegou. Vai se aproximar do escolhido e vai chupar até ele gozar. Cinco vezes, Melissa, cinco. De agora em diante, a gente não vai mais falar. Bom trabalho. E no meu palato cinco gostos diferentes se encontraram, cinco sabores de cinco homens. Cada sabor com sua história, em cada poção a minha vergonha. Durante aqueles momentos, tive a sensação e a ilusão de que o prazer não era só carnal, que era beleza, alegria, liberdade. E estando nua no meio deles senti que pertencia a um outro mundo, desconhecido. Mas quando saí por aquela porta, senti o coração despedaçado e uma vergonha indescritível. Depois me abandonei em cima da cama e senti meu corpo se entorpecendo. Na escrivaninha do quarto estreito eu via o display do meu celular lampejando e sabia que estavam me ligando de casa, já eram duas e meia da manhã. Nesse meio tempo alguém entrou, estendeu-se em cima de mim e me comeu; um outro o seguiu e apontou o pênis para a minha boca. E quando um terminava, o outro descarregava em cima de mim o seu líquido esbranquiçado. E os outros também. Suspiros, lamentos e grunhidos. E lágrimas silenciosas. Voltei para casa cheia de esperma, com a maquiagem borrada, e minha mãe me esperava dormindo no sofá. ( Melissa Panarello, trecho de 100 Escovadas Antes de Ir Prá Cama )